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Atletismo

13/12/2017 17h21

Esporte paralímpico

Ser "coringa": trunfo de Aline Rocha para "unificar" Paralimpíadas

Brasileira que disputou os Jogos do Rio conquistou índices para três provas nos Jogos de inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul

Se fizesse parte de um baralho, Aline Rocha provavelmente seria a carta coringa. A capacidade de adaptação da atleta paralímpica brasileira não se encaixa na limitação de naipes. Em cima de uma cadeira com rodas, já disputou desde as provas de sprint, como os 100m, às distâncias de fundo. Venceu cinco vezes os 15km da São Silvestre e disputou os 1.500m e a maratona nos Jogos Paralímpicos do Rio, em 2016.

No fim do ano passado, contudo, decidiu que rodas convencionais não seriam suficientes para enquadrar sua performance. Passou a incluir no piso de suas ferramentas de trabalho esquis e rodinhas pequenas, similares às de skate (servem para treinar os esportes de inverno em países sem neve). Iniciou ali uma trilha que trouxe no último fim de semana marcas inéditas para o esporte nacional.

Aline durante a etapa da Copa do Mundo de Canmore, no Canadá. Fotos: acervo pessoal

Na etapa da Copa do Mundo de Ski Cross Country de Canmore, no Canadá, encerrada na segunda-feira (12.12), Aline se tornou a primeira brasileira a conquistar vaga nos Jogos Paralímpicos de Inverno. Assim como nas provas de Verão, fez isso em distâncias bem diversas: o sprint de 1km, a trilha de média distância, com 2km, e o equivalente à maratona, com 12km. Com isso, a paranaense se tornará, também, a primeira atleta nacional com participações em Paralimpíadas de Verão e de Inverno.

"Conciliar as duas modalidades é um desafio, mas só topei isso porque as duas se complementam. Uma me proporciona mais trabalho de força (esqui) e a outra (corrida) me proporciona potência"
Aline Rocha

"Não é fácil treinar para todas as provas, mas adoro o desafio. E há uma complementaridade. Numa maratona para cadeirantes, se você não tiver boa largada, perde o pelotão. Boa parte das modalidades que competem na posição sentada são provas em que as exigências físicas estão concentradas na força e na resistência. Essas características, associadas à metodologia de treinamento que utilizamos, contribuem para essa possibilidade de competir em diferentes distâncias com qualidade", avaliou Aline.

Segundo o técnico dela, Fernando Cassio Orso, a polivalência de Aline é uma característica razoavelmente comum no cenário internacional. "No esqui, a maioria dos atletas que compete acaba fazendo pelo menos duas provas, uma de média ou longa distância, mais o sprint. Os velocistas tendem a fazer um treinamento específico de algum momento da prova, como largada e aceleração inicial", explicou.

Com o índice assegurado, a agenda da dupla está repleta até os Jogos de Inverno, que serão realizados na Coreia do Sul, entre 9 e 25 de fevereiro de 2018. "Na primeira semana de janeiro vamos para a Itália, em Livigno, uma condição boa de treinamento e altitude", disse Fernando Orso. Na sequência, Aline disputará outras duas etapas da Copa do Mundo, na Alemanha e na Finlândia. Depois, voltam para uma semana no Brasil e retornam a Livigno, já no período de aclimatação para os Jogos de Pyeongchang.

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Aline, a terceira na fila, espera a hora de largar: índices garantidos para os Jogos de Inverno. Foto: IPC

Da tensão à celebração

No Canadá, Aline experimentou desde a ansiedade pelo índice até a sensação de que conseguiu dar o melhor na prova de 12km. "Volto para o Brasil satisfeita. No sprint, na estreia, confesso que estava nervosa com a pressão", disse. Como a pontuação dos atletas é definida a partir da diferença de tempo entre eles e o primeiro colocado, ela precisou esperar quase uma hora até saber se tinha conseguido o índice.

"O resultado mostra uma atleta de habilidade física enorme. Conseguir se adaptar tão rapidamente a um esporte sob outro aspecto climático é muito difícil"
Rogério Sampaio

"São mais de 20 atletas e cada um larga com intervalo de 30 segundos. Foi tenso porque tive de esperar todas terminarem", disse. "Depois, fiquei bem mais tranquila. A última prova, de 12 km, foi simplesmente incrível. O tempo, a neve e o equipamento estavam perfeitos", completou Aline, que terminou em 14º os 12 km, completados em 40 minutos. A vencedora, a alemã Andrea Eskau, cravou 34min19s.

"Por ser uma atleta de altíssimo rendimento, a Aline já chegou para nós com capacidades física, mental, foco e compreensão avançadas. Ela fez alguns trainning camps até começar a competir e os resultados vieram rapidamente. Ela bateu o recorde brasileiro feminino duas vezes e está no top 15 da Copa do Mundo", disse o CEO e superintendente técnico da Confederação Brasileira de Desportos na Neve, Pedro Cavazzoni.

"É um marco para o país. Uma conquista muito importante. A Aline teve participação emblemática e mereceu. Sem dúvida isso vai ser importante para incentivar outras mulheres a praticar, também, o esporte de neve", afirmou o presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Mizael Conrado.

"O resultado mostra que a Aline é uma atleta de habilidade física enorme, que lhe permite disputar e se destacar em mais de uma modalidade. Conseguir se adaptar tão rapidamente a um esporte sob outro aspecto climático é muito difícil", disse o campeão olímpico de judô e secretário nacional de alto rendimento do Ministério do Esporte, Rogério Sampaio.

Sem perder o foco em 2020

A participação inédita nos Jogos de Inverno é uma motivação extra para Aline, mas ela não perde o foco em outro objetivo, este de longo prazo: a vaga e a medalha nos Jogos de Tóquio, em 2020. "Conciliar as duas modalidades acaba sendo um desafio maior. Porém, só topei isso porque percebo que as duas se complementam. Uma me proporciona mais trabalho de força (esqui) e a outra (corrida) me proporciona trabalho de potência", afirmou a atleta de 26 anos, que sofreu uma lesão na medula após um acidente de carro quando tinha 15. O esporte adaptado passou a ser realidade em sua vida a partir dos 19 anos, quando conheceu uma associação em meio ao trabalho de reabilitação.

Dentro das prioridades, Aline preferiu até deixar a faculdade de educação física no último semestre. "Não estava dando para conciliar. Nessa opção que a gente faz, não dá para ter 90% de dedicação. Tem de ser 100%. Quero uma medalha em Tóquio", afirmou Aline Rocha, que é beneficiária da Bolsa Pódio, do Ministério do Esporte, e considera o incentivo indispensável para suas pretensões.

"Estou morando em São Caetano do Sul faz três anos. Treino direto no CT Paralímpico. A Bolsa Pódio é fundamental para continuar em São Paulo. Sem a Bolsa não poderia me manter. O nosso esporte é caro. A a cadeira de corrida que comprei no Japão custou R$ 19 mil só o quadro. As rodas traseiras custam R$ 10 mil. Para cuidar do nosso dia a dia, alimentação, focar nisso, é indispensável", disse a atleta.

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Aline durante os Jogos do Rio. Meta de longo prazo é conquistar uma medalha em Tóquio, 2020. Foto: CPB

Parceria desde 2012

A preparação de Aline integra uma parceria entre o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) que vem sendo construída desde 2012. O CPB tinha interesse em ampliar a participação nacional nos Jogos Paralímpicos de Inverno. A CBDN tem acesso a parcerias com fundações e recursos para viabilizar preparação, equipamentos apropriados, viagens e torneios. Para isso, busca sempre atletas com perfil próprio para se adaptar aos esportes de neve. André Cintra, no snowboard, e Fernando Aranha, no esqui cross country sentado, foram os pioneiros em Socchi, na Rússia, em 2014.

"Definimos o foco no cross country e no biatlo, que podemos treinar no Brasil com roller ski, e são modalidades com menor competitividade"
Pedro Cavazzoni, CEO da Confederação Brasileira de Desportos na Neve

"Depois de 2014, resolvemos expandir a ideia e fazer um planejamento mais ambicioso. Definimos o foco no cross country e no biatlo, que podemos treinar no Brasil com roller ski, e são modalidades com menor competitividade dentro do programa paralímpico. E, na priorização dos projetos, é sempre interessante investir no feminino", afirmou Cavazzoni.

Ele cita, ainda, a performance de Thomaz Ruan de Moraes. Com apenas 16 anos, o atleta que ganhou três ouros nas Paralimpíadas Escolares deste ano terminou a etapa do Canadá da Copa do Mundo de esqui cross country no Top 15 mundial. "São resultados interessantes aparecendo antes mesmo do que esperávamos", avaliou o CEO da CBDN.

"Desde o início, quando o CPB iniciou conversações com o Comitê Paralímpico Internacional para desenvolver um projeto de esportes de neve no Brasil, a CBDN apareceu como melhor parceira, pela experiência que já tinha no desenvolvimento do esporte de neve para atletas olímpicos. Naturalmente aproveitamos essa expertise deles para desenvolver a modalidade no Brasil", afirmou Mizael Conrado.

Para Rogério Sampaio, a parceria mostra a importância de intercâmbio e entrosamento entre as entidades de administração do esporte brasileiro. "Otimizando recursos a gente consegue buscar melhores resultados. É um sinal de que o esporte brasileiro tem sido feito no sentido correto", disse.

Gustavo Cunha, rededoesporte.gov.br