Você está aqui: Página Inicial / Notícias / Após grave acidente em rio, Petrúcio Ferreira passa por cirurgia e já projeta volta às pistas

Atletismo paralímpico

10/01/2019 11h15

Atletismo

Após grave acidente em rio, Petrúcio Ferreira passa por cirurgia e já projeta volta às pistas

Recordista mundial dos 100m e 200m bateu o rosto em pedra durante mergulho, teve fraturas, perdeu dois dentes, passou por intervenção médica e ficará até 45 dias em recuperação

Uma cirurgia bucomaxilar e a perda de dois dentes da frente estavam longe, bem longe dos planos de Petrúcio Ferreira no fim de 2018, quando recebeu do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) o prêmio de melhor atleta da temporada. Na ocasião, ele projetava como prioridades para 2019 a preparação para o Parapan de Lima, em agosto, e o Mundial de Dubai, nos Emirados Árabes, em novembro. Tudo dentro de uma gradação para o campeão e recordista mundial dos 100m e 200m consolidar a vaga para os Jogos Paralímpicos de Tóquio, em 2020.

Se não estavam nos planos, a cirurgia e o período de reabilitação de até 45 dias já são vistos, hoje, como um presente pelo atleta paraibano. Isso porque ele sofreu um grave acidente no dia 2 de janeiro, em Jardim de Piranhas, no interior da Paraíba. Petrúcio lavava seu carro na beira de um rio. Depois da limpeza, decidiu dar um mergulho no curso d'água. Caiu com a face direto em uma pedra. A fratura foi grave, mas poderia ter sido pior. Petrúcio disse à equipe médica que chegou a pensar que pudesse ficar paraplégico, como ocorreu com o escritor Marcelo Rubens Paiva. 

"A gente remete logo ao caso de Marcelo Rubens Paiva, mas foi diferente por ele não ter batido a cabeça, o crânio. Ele teve um trauma quase que deslizante na face. Felizmente não houve problema na articulação do pescoço. Ele fala, está comunicante e super colaborativo", afirmou José Lacet Lima Junior, um dos médicos que tratou Petrúcio no Hospital Nossa Senhora das Neves, em João Pessoa, em entrevista ao Globoesporte.com.

"Pelo fato de ter quebrado dois dentes da frente, ele também vai precisar ajustar essa parte estética. A gente imagina entre 30 e 45 dias de recuperação"
Emídio de Morais, empresário de Petrúcio

O procedimento cirúrgico foi realizado em 8 de janeiro, durou três horas e o boletim médico divulgado no dia 9 indica que foi bem sucedido (veja a íntegra ao lado). "Petrúcio Ferreira será submetido aos exames pós-operatórios, e estando dentro dos parâmetros de alta, a previsão de saída é em 24h. Após a alta, o velocista paraibano inicia fisioterapia e acompanhamento clinico imediato", indicou o documento.

Segundo o empresário do atleta, Basílio Emídio de Morais Júnior, a estimativa é de que o velocista precise de até 45 dias para retomar as atividades. Como as duas principais competições do ano estão agendadas para o segundo semestre, ele avalia que a perspectiva é de que ele possa estar em forma. "Pelo fato de ter quebrado dois dentes da frente, ele também vai precisar ajustar essa parte estética. A gente imagina entre 30 e 45 dias de recuperação. Vai atrasar um pouco o início da temporada, mas temos tempo, sim, para recuperar a forma dele até o Mundial", afirmou Emídio.

Em rápida declaração ao Globo Esporte, Petrúcio afirmou que prevê para maio o retorno competitivo às pistas. "Estou passando por algumas dores, faz parte do processo, mas sei que daqui a 15 dias já quero estar melhor para voltar a treinar. A partir de maio, quero estar 100%", disse.

Petrúcio imagina estar 100% recuperado em maio. Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB

Corrida na essência

"Bora apostar corrida?". Desde a infância, Petrúcio tinha uma espécie de disjuntor que era acionado toda vez que ouvia essa pergunta. Em condições normais, não negava o convite. Adorava correr, principalmente quando chegava na frente. Usou a natural habilidade de velocista durante um bom tempo nos campos de futebol. Descoberto em São José do Brejo do Cruz, no interior da Paraíba, foi convencido a migrar para o atletismo e a morar em João Pessoa. Aos 22 anos, se transformou num dos nomes de referência do esporte paralímpico nacional.

"O Parapan e o Mundial são competições fortes, que servem para a gente medir o nível e tentar se garantir em Tóquio. Quero buscar marcas ainda melhores"
Petrúcio Ferreira

"Quando entro na pista, tento preservar aquele espírito de brincadeira, de jogo, não de trabalho, obrigação. Quem nunca brincou de apostar corrida? É lógico que hoje é coisa séria, mas pensando dessa forma fico descontraído e dou sempre o meu melhor", afirmou o atleta, integrante da categoria pódio, a principal do programa Bolsa Atleta, da Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania.

Com o histórico de um ouro (100m) e duas pratas (400m e revezamento 4 x 100m) nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, Petrúcio se consolidou no ciclo para Tóquio de forma ainda mais consistente. Venceu os 100m (10s53) e os 200m (21s21) no Mundial de Londres, em 2017, com direito a recordes mundiais nas duas distâncias. Não satisfeito, melhorou as marcas em 2018. Cravou 10s50 nos 100m no GP de Paris, na França, em junho. Um mês depois, completou os 200m em 21s17, no GP de Berlim, na Alemanha.

"Posso dizer que a última temporada foi excelente. Consegui bons resultados e quebrei dois recordes mundiais. Isso me deixa motivado para 2019", afirmou. "É um ano estratégico, importante. Antecede os Jogos Paralímpicos de Tóquio. Temos os Jogos Parapan-Americanos de Lima, no Peru, em agosto, com um monte de adversários do topo do ranking. Logo depois, o Mundial, em Dubai, nos Emirados Árabes, em novembro. São competições fortes, que servem para a gente medir o nível, tentar garantir a vaga para Tóquio e saber como vamos chegar em 2020. Quero buscar marcas ainda melhores".

petrucio_foco.jpg
De jovem esperança em 2016, Petrúcio se tornou 'o cara a ser batido'. Foto: Graziella Batista/CPB/MPIX

"Puxador do bonde"

Petrúcio vem experimentando nesse ciclo uma mudança de status. Chegou aos Jogos Rio 2016 como potencial revelação. Hoje, é visto entre os adversários como "o cara a ser batido". Para ele, uma condição com a qual vem aprendendo a conviver. "Significa um pouco mais de cobrança, né? Mas para mim tem sido uma cobrança boa, que tenho conseguido lidar bem. Mesmo 'puxando esse bonde', acho que consigo mostrar que o esporte paralímpico está ganhando espaço. É isso que me motiva a treinar mais forte", disse.

Mais à vontade perto da família e no convívio de longa data com o técnico Pedro de Almeida, Petrúcio prefere permanecer com a base em João Pessoa, em vez de se mudar para a estrutura de referência do Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo. Ainda assim, usufrui da tecnologia e da qualificação técnica dos profissionais do CT em torneios nacionais e em reuniões da seleção.

"O CT funciona para mim como uma segunda casa. É um espaço importante tanto para os atletas de alto rendimento quanto para os da iniciação. Eu prefiro seguir na Paraíba, perto do Pedrinho, meu treinador, e da minha família, mas de tempos em tempos venho para competições, aclimatações e testes no CT", disse o atleta, que recebeu o Prêmio Paralímpicos, do Comitê Paralímpico Brasileiro, como destaque do atletismo em 2018.

petrucio_ferreira_abelardo_mendes_jr.jpg
Petrúcio durante o Prêmio Paralímpicos, em dezembro: melhor da modalidade em 2018. Foto: Abelardo Mendes Jr./rededoesporte.gov.br

Horizonte olímpico

Com tempos na casa dos 10s50, Petrúcio chega a pensar em se aventurar também nas disputas olímpicas. Em algumas ocasiões, participou de competições que uniam o Comitê Paralímpico e a Confederação Brasileira de Atletismo. Para ele, uma opção que ajuda a ganhar experiência e a buscar marcas expressivas.

"Em algumas competições já fizemos isso. É bom correr ao lado de gente mais rápida para tentar novas marcas, mas não é o meu foco. Quem sabe para depois de 2020 eu possa fazer como o Pistorius e tentar também uma Olimpíada", disse, numa referência ao sul-africano Oscar Pistorius, atleta com amputação nas duas pernas que disputou, com próteses, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres, em 2012.

Petrúcio compete na Classe T47. Ele sofreu um acidente com uma máquina de moer capim e perdeu parte do braço esquerdo. Para ser competitivo no ambiente olímpico, precisaria correr os 100m perto de 10s15. No ano passado, por exemplo, o capixaba Paulo André de Oliveira correu a distância em 10s02. É o melhor registrado no país desde os 10s cravados por Robson Caetano em 1988.

Gustavo Cunha - rededoesporte.gov.br