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Judô

06/12/2017 09h42

Entrevista

Luciano Corrêa: "Quero contribuir de outra forma"

Campeão mundial de judô fala sobre a decisão de deixar os tatames, relembra momentos marcantes, ressalta a relevância de investimentos federais e antecipa a intenção de atuar como gestor

Na segunda-feira (4.12), o judoca brasiliense Luciano Corrêa anunciou, por meio de uma carta emocionada, sua aposentadoria dos tatames. Aos 35 anos, Luciano encerrou, assim, uma vitoriosa carreira, iniciada em Brasília, aos quatro anos, que o levou, entre outros títulos, à medalha de ouro no Mundial de 2007, disputado no Rio de Janeiro, quando viveu o ápice de suas conquistas.

Luciano celebrando o ouro conquistado no Pan de Toronto, em 2015. Foto: brasil2016.gov.br

Em três décadas, Luciano conquistou inúmeros outros títulos. Foi bronze no Mundial de 2005, no Cairo, bicampeão dos Jogos Pan-Americanos, tricampeão dos Jogos Mundiais Militares, multimedalhista em etapas de Open, Copa do Mundo, Grand Prix e Grand Slam do Circuito Mundial da Federação Internacional de Judô (FIJ), além de três títulos brasileiros.

Meio-pesado, Luciano tinha 16 anos quando juntou-se à equipe do Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, e, em 2001, aos 19 anos, na temporada em que conquistou o título de campeão pan-americano júnior, venceu a seletiva nacional e entrou para a seleção principal. Não saiu de lá por 16 anos. Entre 2009 e 2015, foi assíduo beneficiário da Bolsa Atleta do Ministério do Esporte. Entre 2009 e 2013, na categoria Olímpica. De 2013 a 2015, na Bolsa Pódio. 

"A minha formação é em administração e fiz um MBA em gestão esportiva. A intenção é trabalhar nessa parte da administração esportiva. Estou estudando opções"
Luciano Corrêa

Em entrevista à Rede do Esporte, Luciano fala sobre a decisão de deixar os tatames, relembra os momentos mais marcantes de sua trajetória esportiva, analisa o sucesso das judocas do Brasil nas Olimpíadas, fala sobre a importância dos investimentos federais nos esportes olímpico e adianta que pretende, em breve, atuar na área de gestão administrativa do esporte.

A decisão de encerrar uma carreira no esporte é sempre difícil. Há quanto tempo você vinha pensando no assunto antes do anúncio, nesta semana?

É um assunto que penso desde que perdi a vaga, em 2016, para as Olimpíadas (do Rio). Meu ciclo ia se encerrar ali, mas ainda tive um gás a mais, uma motivação de continuar por um ano, e agora estou com isso consolidado. É um momento difícil, porque é algo que fiz a vida inteira, mas é necessário. Acho que o atleta tem de saber a hora de parar. Tudo na vida tem um timing. E acho que para mim esse ciclo se encerrou. Agora é continuar ajudando o esporte brasileiro, não como atleta, mas de outra forma.

O que pesou mais nessa decisão? A parte física? Foi o desgaste natural da carreira?

A motivação eu tenho, na parte física não estou machucado, então acho que o que pesou é esse desejo de poder contribuir para o esporte brasileiro de outra forma.

"Eu fui um cara que toda a vida esportiva tive o Bolsa Atleta, depois o Bolsa Pódio, e isso dá segurança para o atleta trabalhar com tranquilidade"

Você conquistou um ouro e um bronze em Mundiais, disputou duas Olimpíadas e subiu ao pódio em diversos eventos internacionais. Você consegue enumerar os três momentos que mais o marcaram?

Nossa, são vários. Um grande momento que tenho na lembrança foi a participação na abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Aquilo ali foi mágico, onde agradeci por ter sido atleta. O que vivenciei naquele momento foi uma coisa mágica. Tem o Campeonato Mundial que ganhei no Brasil (em 2007, no Rio de Janeiro). Foi em casa, com meus pais e amigos, todo mundo no ginásio torcendo. Um outro momento marcante foi que eu pude vivenciar os Jogos Olímpicos dentro de casa. Não participando como atleta, mas como comentarista da SporTV. Foi muito bom ver os brasileiros acompanhando essa magia que são os Jogos Olímpicos.

Como você classifica o papel do Ministério do Esporte em sua carreira?

O Ministério do Esporte é fundamental para todos os esportes, principalmente para nós, do esporte olímpico. Temos um suporte que o Ministério dá para as confederações, mas principalmente diretamente para o atleta. Eu fui um cara que toda a vida esportiva tive o Bolsa Atleta, depois o Bolsa Pódio, e isso dá uma certa segurança para o atleta trabalhar com tranquilidade e investir em sua carreira. Esse papel do Ministério do Esporte de ter convênios de materiais e equipamentos com os grandes clubes e com as confederações é super importante e esse aporte diretamente para o atleta é fundamental. Então, acho que o Ministério do Esporte tem grande parcela, juntamente com as entidades, na construção de um grande atleta em nosso país.

"Penso na aposentadoria desde que perdi a vaga, em 2016, para as Olimpíadas. Tudo na vida tem um timing, e acho que para mim esse ciclo se encerrou"

No judô, os atletas hoje contam com o Centro Pan-Americano, em Lauro de Freitas, uma casa só deles, a exemplo de outros esportes. Qual sua opinião sobre o legado olímpico?

Eu acho que é muito radical falar que o Rio 2016 não deixou legado. É lógico que alguns legados poderiam ter funcionado melhor. Mas temos um legado, sim. Estamos vendo a nossa confederação (Confederação Brasileira de Judô) com sua própria casa, alguns clubes com novos equipamentos, então há legado, sim.

O judô é a modalidade que mais medalhas deu ao Brasil em Jogos Olímpicos. São 22 pódios, sendo quatro ouros, três pratas e 15 bronzes. Qual o motivo de tanto sucesso?

O motivo é o trabalho. A formação dos atletas é muito boa e acho que tem a ver também com a gestão que está à frente da Confederação Brasileira de Judô, juntamente com toda sua equipe, com o apoio dos clubes, das federações. O sucesso do judô é fruto de um trabalho em conjunto, cada um com a sua parte, e lá na ponta do iceberg, que é a medalha olímpica, isso está acontecendo.

No feminino, em especial, o Brasil demorou até conquistar uma medalha olímpica, mas desde os Jogos de Pequim 2008, quando Ketleyn Quadros levou o bronze, o sucesso das mulheres cresce a cada edição. Os últimos dois ouros, inclusive, foram com as meninas, com Sarah Menezes, em Londres 2012, e Rafaela Silva, no Rio 2016. A Mayra foi bronze nas duas competições e se tornou a primeira judoca do país, entre homens e mulheres, a subir no pódio olímpico duas vezes seguidas. Qual o motivo de tamanha evolução?

Eu acho que as meninas trabalham duro, sério, e houve um grande trabalho da comissão da confederação, juntamente com a Rosicléia Campos (técnica da seleção feminina de judô), e acho que cada vez mais elas entenderam o potencial que têm e acredito que daqui para frente, cada vez mais, o Brasil vai ter ótimos resultados. Essa geração no feminino é muito boa, com Mayra, Érika (Érika Miranda), Sarah, Portela (Maria Portela), Ketleyn, Mariana (Mariana Silva), Rafaela… É uma geração maravilhosa, sempre inspirando outras gerações, para que essa potência feminina continue por anos e anos.

Nós encerramos o primeiro ano do ciclo olímpico para os Jogos de Tóquio 2020. O que podemos esperar para as Olimpíadas do Japão no judô? É possível superar o desempenho de Londres 2012, quando o Brasil faturou quatro medalhas na modalidade?

Não temos que mensurar o número de medalhas, porque a gente sabe que nos Jogos Olímpicos é muito difícil contar quantas medalhas um país irá ganhar. Mas tenho total confiança e certeza de que o Brasil vai chegar lá bem representado e vamos ter não só uma, mas algumas medalhas. Mas o número é difícil saber.

E agora, depois da aposentadoria? Quais os seus planos? Virar técnico ou dirigente?

A minha formação é em administração e fiz um MBA em gestão esportiva. A minha intenção é trabalhar nessa parte da administração esportiva. Mas é cedo para apontar algo. Estamos estudando opções e mais para frente confirmo isso. Por agora, vou passar o Natal com minha família, em Brasília, e o ano-novo com a família da minha esposa (a nadadora Joanna Maranhão), em Recife. Depois a gente volta para Belo Horizonte para encarar o ano de 2018.

Luiz Roberto Magalhães - Ministério do Esporte