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Atletismo

23/11/2017 16h45

Jogos de Inverno

Fã de jogos escolares, Aline Rocha tenta ser a primeira brasileira na Paralimpíada de Inverno

Pentacampeã da São Silvestre e com participação na Rio 2016, fundista concilia a busca por medalha em Tóquio com a corrida pelo índice no esqui cross-country em Pyeongchang 2018

Na lateral da quadra de basquete 3 x 3 do Centro de Treinamento Paralímpico de São Paulo, uma cadeirante de 26 anos, com o uniforme verde da seleção brasileira, observa a movimentação dos adolescentes de 12 a 17 anos nas Paralimpíadas Escolares. Na mente dela, um quê de inveja e uma sensação nítida de evolução do movimento paralímpico.

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Aline à frente de sua imagem nos Jogos do Rio e sentada na cadeira de inverno adaptada para treinos no 'seco'. Foto: Arquivo pessoal

"Para mim é importante demais ver todo esse movimento crescendo nas escolas, ver essas crianças que vão substituir a gente nas próximas Paralimpíadas", disse Aline Rocha, integrante da seleção brasileira paralímpica de atletismo. "Sofri um acidente de carro aos 15 anos e sofri uma lesão medular. Em toda a fase escolar, não praticava esporte. Depois do acidente, a cadeira era mais um motivo para não fazer nada. Os professores não sabiam que eu podia e eu também não. Foi só com 19 anos, quando saí da escola, que conheci uma associação. Imagine se tivesse começado antes? Poderia ter chegado aqui bem mais rápido".

Se o início foi, na opinião dela, tardio, Aline resolveu viver intensamente todas as possibilidades que se apresentaram na sequência. É pentacampeã da São Silvestre. Já venceu as maratonas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Disputa dos 100m à maratona nas provas paralímpicas de verão. E, há um ano, passou a se dedicar à missão de se tornar a primeira brasileira a chegar aos Jogos Paralímpicos de Inverno no esqui cross-country.

Logo após participar dos Jogos Rio 2016 (foi nona nos 1.500m e décima na maratona), ela resolveu ousar. Por incentivo de um amigo, Fernando Aranha, que foi o primeiro atleta paralímpico brasileiro nos Jogos de Inverno, em Sochi (2014), ela imaginou um projeto de parceria entre o Comitê Paralímpico Brasileiro e a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN).

Treinamento em túnel de neve na Alemanha: na briga pelo índice para os Jogos de 2018. Foto: arquivo pessoal

"Demonstrei meu interesse e disposição e eles gostaram da ideia. Menos de um mês depois, a CBDN marcou minha primeira viagem para a neve: em dezembro de 2016 fui para a Suécia. A adaptação foi rápida. Em janeiro me levaram para a Copa do Mundo na Ucrânia. Peguei 28 graus negativos e houve tempestade de neve durante a prova e, mesmo assim, completei os 12km a um minuto do índice paralímpico. De lá para cá, evoluí 100%", comentou, animada para a nova tentativa de índice, que fará na próxima semana, numa etapa da Copa do Mundo no Canadá.

Aline tenta a marca para Pyeongchang em três provas: o sprint de 1km, a prova de 2km e a longa, de 12km. "Hoje, no ambiente de verão, minhas melhores distâncias são as de fundo, os 5 mil metros e a maratona. Por isso, é nos 12km que tenho maior expectativa", disse a fundista, natural de Campos Novos, em Santa Catarina.

Além das provas na Ucrânia e na Suécia, Aline esteve no mês passado na Alemanha. "Lá eles têm uma pista indoor. Um túnel climatizado com neve dentro", explicou. Quando está no Brasil, ela adapta a cadeira, numa versão batizada de roller ski, para treinar "no seco". "Na prática, a gente coloca umas rodinhas e usa o bastão normal, de neve, para treinar. Tem também uma versão maior, que chamamos de skate mountain board, com uma fixação para treinar no asfalto", explicou.

Aline Rocha nas Paralimpíadas Escolares: suporte à nova geração. Foto: Gustavo Cunha/rededoesporte.gov.br

A prática de intercalar Jogos de Verão e de Inverno, segundo Aline, é razoavelmente comum no movimento paralímpico. "Na verdade, este foi um dos argumentos para eu tentar essa adaptação. Vi que muitas das minhas adversárias em provas internacionais de verão migravam para os esportes da neve nos Jogos de Inverno e nem por isso deixavam de evoluir. Aí pensei: se elas podem, por que não eu?".

"Vi que muitas das minhas adversárias em provas internacionais de verão migravam para os esportes da neve nos Jogos de Inverno e nem por isso deixavam de evoluir. Aí pensei: se elas podem, por que não eu?"
Aline Rocha

Independentemente de conseguir ou não a vaga na Coreia do Sul, o foco de longo prazo de Aline é Tóquio, em 2020. "Até larguei no último semestre meu curso de educação física. Não estava dando para conciliar. Nessa opção que a gente faz, não dá para ter 90% de dedicação. Tem de ser 100%. Quero uma medalha em Tóquio", afirmou Aline Rocha, que é beneficiária da Bolsa Pódio, do Ministério do Esporte, e considera o incentivo indispensável para suas pretensões.

"Estou morando em São Caetano do Sul faz três anos. Treino direto no CT Paralímpico. A bolsa é fundamental para continuar em São Paulo. Sem a bolsa não poderia me manter. O nosso esporte é caro. Só a cadeira de corrida que comprei há 15 dias, no Japão, custou R$ 19 mil só o quadro. As rodas traseiras custam R$ 10 mil. Para poder cuidar do nosso dia a dia, alimentação, focar nisso, é indispensável", disse a atleta, que aproveita as Paralimpíadas Escolares para fazer uma visita ao seu histórico pessoal e ajudar as novas gerações. 

"Na verdade, sendo muito sincera, eu jamais imaginei que estaria aqui. Eu não gostava de esporte quando era mais jovem. A leitura que faço é que as coisas acontecem e aconteceram para melhor. Hoje não me vejo sem o esporte. É a minha razão de viver. Por isso vim aqui nos Escolares, para auxiliar outros atletas no atletismo, com dicas, equipamentos e técnicas", afirmou. 

Gustavo Cunha, rededoesporte.gov.br